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CONHEÇA O CLUBE MILITAR - Assembléia Fundadora
REVISTA DO CLUBE MILITAR Nº 48
Rio de Janeiro, 26 de Junho de 1937.
(número especial de celebração do cinqüentenário do Clube Militar)
Texto Original*

Autor: Gen Umberto Peregrino Seabra Fagundes

"O Clube Militar começou preciosamente em 26 jun 1887. Tratava-se do começar formal, constante de sessão solene com discursos enfáticos, para público importante. Também povo da rua e na praça ao redor, sob a animação da banda de música. Muito antes, entretanto, desse momento, o Clube já vinha tendo existência crescente através de um período de gestação muito nitidamente demarcado. Preliminarmente, cumpre recordar a inquietação político-militar que passou a desenvolver-se no período que se segui à Guerra do Paraguai. O tratamento que continuou sendo conferido ao Exército no pós-guerra, tanto no que respeitava ao recrutamento como à formação do quadro de oficiais, serviu de cultura para a situação que iria evoluir. Não tardou o Exército, através das suas melhores expressões tradicionais e da oficialidade nova, formada sob a inspiração filosófica da Escola Militar da Praia Vermelha, estivesse fervoroso e ativamente empenhado na campanha abolicionista ao mesmo tempo que assumia sensível comprometimento com a campanha republicana.

Todavia, foram problemas do interesse da classe militar que primeiro despertaram movimentos reivindicatórios . Foi o caso, por exemplo, do Projeto Paranaguá (1883), criando o montepio obrigatório. A classe reagiu e derrubou o Projeto através da palavra de Sena Madureira, que o caracterizou como injusto e arbitrário.

Independente, porém, de casos específicos, visava ao sentimento de solidariedade dos militares, os quais entraram a buscar a própria organização como classe. O Gen J. M. Moreira Guimarães assim registraria esse estado de espírito:

"Ambicionava-se, efetivamente, a existência de Clubes Militares nas capitais das províncias, destinados a estreitar ainda mais os laços de união entre a oficialidade do Exército e da Marinha e tornar mais fáceis e eficientes o progresso da classe e a defesa dos seus legítimos interesses".

Sena Madureira, escrevendo ao Cap João de Souza Costa (1887), fixou o desenvolvimento final da idéia associativa:

"Estou encarregado de, com o Gen Deodoro e o Dr. Benjamin Constant, organizar os Estatutos dos Centros ou Clubes Militares que desejamos fundar aqui e em todas as guarnições importantes, no intuito de unir a classe para a defesa de nossos interesses e sustentar futuras lutas".

Vale registrar que, na área da Marinha, a idéia associativa já fora há muito adotada. Houve um Clube da Marinha ainda na década de 1870, ao qual se seguiu o "Círculo da Marinha". Por fim, o Clube Naval, de 12 de abril de 1884, sob preocupações predominamente culturais.

Surgiu a tempo, portanto, de poder hospedar o Clube Militar no dia da inauguração solene (26 jun 1887). A concessão efetivou-se formalmente, por decisão da Diretoria reunida em 26 jun 1887. Constatou que era "com maior satisfação" que se facultava "o uso de suas salas aos senhores oficiais do Exército, para tratarem da organização de um Clube Militar, atendendo à solicitação do Sr. Cel Cunha Mattos, feita em nome do Sr. Visconde de Pelotas".

A sede do Clube Naval ocupava o prédio nº 43 da Praça da Constituição. Naquela área predestinada, convém lembrar, localizara-se botica do liberal Juvêncio Ferreira; daí as suas vivências iniciais como ponto de discussões políticas, às quais era presente Evaristo da Veiga, além de jovens oficiais como Polidoro e Luis Alves de Lima.

Pela mesma época (1885), a Praça ostentaria outro clube poderoso, o Derbi. Este ocupou antiga mansão do marquês de Inhampube, famosa pelas pinturas de Francisco do Amaral, o artista que decorou a casa da marquesa de Santos.

Não houve, certamente, no período do Império, logradouro mais expressivo da história da cidade. Ali, os primeiros teatros, sucessivamente consumidos pelo fogo, como se uma fatalidade os perseguisse. Ali, Também, os hotéis principais daquele tempo.

Das construções antigas, de relevante valor arquitetônico, resta ainda o solar construído por Antonio Preta de Bittencout (Presidente Senado Câmara) para sua residência. Abrigou fidalgos portugueses chegados com D. João, em 1808. Tempos depois, já sob a propriedade do barão da Taquara, funcionou como sede de outro clube importante, o Fluminense (ex-Arcádia), que registrara a glória de Ter sido visitado por Sarmento numa das suas passagens pelo Rio.

Em 1876, o Governo Imperial adquiriu o solar, cuja marca arquitetônica eram as quatro estátuas de figuras femininas que ostentava no alto da fechada, tais como ainda hoje podem ser vistas. Trata-se daquela sólida edificação ora servindo de sede do Serviço do Trânsito.

Praça da Constituição (denominação dada por José Bonifácio em 2 mar 1822, para homenagear a carta Portuguesa de 1821), teve origem física no primitivo Campo dos Ciganos, depois chamado Rocio Grande e Largo do Rocio ou simplesmente Rocio.

Sob o nome de Praça da Constituição, recebeu (30 mar 1862) a estátua eqüestre de D. Pedro I, primeiro monumento público que se erguia na cidade. E foi então que o povo andou usando a denominação "Praça dos Caboclos", ao que tudo indica inspirada nos abundantes índios que ornamentavam o monumento. Oficialmente Praça da Construção, foi depois Praças Tiradentes, a seguir Praça da Independência e, de novo, até hoje, Praça Tiradentes.

Velho Rocio, Velho Rio, outrora Praça dos Teatros, dos hotéis, dos Clubes, do famoso café do Braguinha; ali, nos sobrados à volta, residentes históricos como José Bonifácio ou o famoso médico Dias da Cruz. Ali, a presente de Paula Brito com a sua decisiva tipografia e a Loja do Conto, também chamada de Loja do Chá, localizada na face onde está hoje o teatro João Caetano. Junto a Paula Brito, Casimiro de Abreu era caixeiro e Machado de Assis tipografo, ao passo que se reuniam em assíduas tertúlias Gonçalves Dias, Paranhos, Francisco Otavio, Saldanha Marinho, Porto Alegre, Joaquim Manoel de Macedo, Laurindo Rabelo.

E assim chegamos à reunião solene de 26 jun 1887, sob a presidência do visconde de Pelotas. Este preferiu palavras de louvor ao "velho camarada Marechal Deodoro" para propor que ele fosse aclamado presidente de tão ilustre Assembléia, na oportunidade própria.

Deodoro, depois de aclamado presidente, incumbiu Sena Madureira de ler o anteprojeto dos Estatutos, por ele mesmo assinado e também por Benjamin Constant. Constava de 19 artigos apresentados em rascunho do ditado de Sena Madureira à própria esposa. Imediatamente posto à votação, é aprovado por unanimidade, ao mesmo tempo que se constituía uma "comissão da Relação dos estatutos", integrada pelo Ten Cel Sena Madureira, Cap Inocêncio Serzedelo Correia, 1º Ten da Armada Benjamin de Mello.

A seguir os oradores "discorreram sobre vários assuntos atinentes à classe", a saber: Previdência Social da Classe Militar, Criação de um Montepio no Clube Militar, extensão a todos os oficiais da Armada e do Exército fora da Corte e ingresso na Irmandade Santa Cruz dos Militares (possuía Montepio).

Pela ordem fizeram-se ouvir: Mal Câmara, Sena Madureira, Marciano Botelho de Magalhães, Severino da Fonseca, CMG José Marques Guimarães, Cel Cunha Mattos, Benjamin Constant, Serzedelo Correia, Ten Tenório Lima, Sena Madureira e Custódio de Melo, que encerrou a sessão.

A primeira Diretoria do Clube Militar, que acabava de instalar-se, estava assim constituída:

Presidente: Manoel Deodoro da Fonseca; Vice-Presidente: Custódio José de Melo; 1º Secretário: José Simeão de Oliveira; 2º Secretário: Marciano Augusto Botelho Magalhães; Comissão de Imprensa: José Marques Guimarães, Eduardo Wandenkolk e Antônio Sena Madureira.

Aprovou-se ainda a constituição de mais uma "Comissão", esta destinada a agradecer à imprensa "livre e independente da Corte" pela defesa dos interesses da classe militar. Componentes: Mal Câmara, Mal Deodoro, Alm Custódio.

Quanto ao Trono, era de desconfiança a expectativa em torno da criação do Clube Militar. É pelo menos o que se depreende da consulta que a princesa Isabel, no exercício da Regência, dirigiu á sessão de Marinha e Guerra do Conselho de Estado. Indagava sobre a legitimidade do Clube.

A resposta declarou "que o Clube Militar não é das associações que carecem de prévia autorização do governo, que seus fins são perfeitamente legítimos e dignos até de admiração . . .".

Foi porém, pronunciamento de 29 out 1887, quando já estava plenamente consolidado o Clube, instalado naquela enfática sessão de 26 jun 1887, presidida pelo Mal Deodoro da Fonseca."