Texto Original*
Autor: Gen Umberto Peregrino Seabra Fagundes
"O Clube Militar começou preciosamente em 26 jun 1887.
Tratava-se do começar formal, constante de sessão solene com discursos enfáticos, para público importante.
Também povo da rua e na praça ao redor, sob a animação da banda de música. Muito antes, entretanto, desse
momento, o Clube já vinha tendo existência crescente através de um período de gestação muito nitidamente demarcado.
Preliminarmente, cumpre recordar a inquietação político-militar que passou a desenvolver-se no período que se segui
à Guerra do Paraguai. O tratamento que continuou sendo conferido ao Exército no pós-guerra, tanto no que respeitava
ao recrutamento como à formação do quadro de oficiais, serviu de cultura para a situação que iria evoluir. Não tardou
o Exército, através das suas melhores expressões tradicionais e da oficialidade nova, formada sob a inspiração filosófica
da Escola Militar da Praia Vermelha, estivesse fervoroso e ativamente empenhado na campanha abolicionista ao mesmo
tempo que assumia sensível comprometimento com a campanha republicana.
Todavia, foram problemas do interesse da classe militar que primeiro despertaram movimentos reivindicatórios . Foi
o caso, por exemplo, do Projeto Paranaguá (1883), criando o montepio obrigatório. A classe reagiu e derrubou o Projeto
através da palavra de Sena Madureira, que o caracterizou como injusto e arbitrário.
Independente, porém, de casos específicos, visava ao sentimento de solidariedade dos militares, os quais entraram
a buscar a própria organização como classe. O Gen J. M. Moreira Guimarães assim registraria esse estado de espírito:
"Ambicionava-se, efetivamente, a existência de Clubes Militares nas capitais das províncias, destinados a estreitar
ainda mais os laços de união entre a oficialidade do Exército e da Marinha e tornar mais fáceis e eficientes o progresso
da classe e a defesa dos seus legítimos interesses".
Sena Madureira, escrevendo ao Cap João de Souza Costa (1887), fixou o desenvolvimento final da idéia associativa:
"Estou encarregado de, com o Gen Deodoro e o Dr. Benjamin Constant, organizar os Estatutos dos Centros ou Clubes
Militares que desejamos fundar aqui e em todas as guarnições importantes, no intuito de unir a classe para a defesa de
nossos interesses e sustentar futuras lutas".
Vale registrar que, na área da Marinha, a idéia associativa já fora há muito adotada. Houve um Clube da Marinha ainda
na década de 1870, ao qual se seguiu o "Círculo da Marinha". Por fim, o Clube Naval, de 12 de abril de 1884, sob
preocupações predominamente culturais.
Surgiu a tempo, portanto, de poder hospedar o Clube Militar no dia da inauguração solene (26 jun 1887). A concessão
efetivou-se formalmente, por decisão da Diretoria reunida em 26 jun 1887. Constatou que era "com maior satisfação"
que se facultava "o uso de suas salas aos senhores oficiais do Exército, para tratarem da organização de um Clube Militar,
atendendo à solicitação do Sr. Cel Cunha Mattos, feita em nome do Sr. Visconde de Pelotas".
A sede do Clube Naval ocupava o prédio nº 43 da Praça da Constituição. Naquela área predestinada, convém lembrar,
localizara-se botica do liberal Juvêncio Ferreira; daí as suas vivências iniciais como ponto de discussões políticas, às quais
era presente Evaristo da Veiga, além de jovens oficiais como Polidoro e Luis Alves de Lima.
Pela mesma época (1885), a Praça ostentaria outro clube poderoso, o Derbi. Este ocupou antiga mansão do marquês
de Inhampube, famosa pelas pinturas de Francisco do Amaral, o artista que decorou a casa da marquesa de Santos.
Não houve, certamente, no período do Império, logradouro mais expressivo da história da cidade. Ali, os primeiros
teatros, sucessivamente consumidos pelo fogo, como se uma fatalidade os perseguisse. Ali, Também, os hotéis principais
daquele tempo.
Das construções antigas, de relevante valor arquitetônico, resta ainda o solar construído por Antonio Preta de
Bittencout (Presidente Senado Câmara) para sua residência. Abrigou fidalgos portugueses chegados com D. João, em
1808. Tempos depois, já sob a propriedade do barão da Taquara, funcionou como sede de outro clube importante, o
Fluminense (ex-Arcádia), que registrara a glória de Ter sido visitado por Sarmento numa das suas passagens pelo Rio.
Em 1876, o Governo Imperial adquiriu o solar, cuja marca arquitetônica eram as quatro estátuas de figuras femininas
que ostentava no alto da fechada, tais como ainda hoje podem ser vistas. Trata-se daquela sólida edificação ora servindo
de sede do Serviço do Trânsito.
Praça da Constituição (denominação dada por José Bonifácio em 2 mar 1822, para homenagear a carta Portuguesa
de 1821), teve origem física no primitivo Campo dos Ciganos, depois chamado Rocio Grande e Largo do Rocio ou
simplesmente Rocio.
Sob o nome de Praça da Constituição, recebeu (30 mar 1862) a estátua eqüestre de D. Pedro I, primeiro monumento
público que se erguia na cidade. E foi então que o povo andou usando a denominação "Praça dos Caboclos", ao que tudo
indica inspirada nos abundantes índios que ornamentavam o monumento. Oficialmente Praça da Construção, foi depois
Praças Tiradentes, a seguir Praça da Independência e, de novo, até hoje, Praça Tiradentes.
Velho Rocio, Velho Rio, outrora Praça dos Teatros, dos hotéis, dos Clubes, do famoso café do Braguinha; ali, nos
sobrados à volta, residentes históricos como José Bonifácio ou o famoso médico Dias da Cruz. Ali, a presente de Paula
Brito com a sua decisiva tipografia e a Loja do Conto, também chamada de Loja do Chá, localizada na face onde está hoje
o teatro João Caetano. Junto a Paula Brito, Casimiro de Abreu era caixeiro e Machado de Assis tipografo, ao passo que
se reuniam em assíduas tertúlias Gonçalves Dias, Paranhos, Francisco Otavio, Saldanha Marinho, Porto Alegre, Joaquim
Manoel de Macedo, Laurindo Rabelo.
E assim chegamos à reunião solene de 26 jun 1887, sob a presidência do visconde de Pelotas. Este preferiu palavras
de louvor ao "velho camarada Marechal Deodoro" para propor que ele fosse aclamado presidente de tão ilustre
Assembléia, na oportunidade própria.
Deodoro, depois de aclamado presidente, incumbiu Sena Madureira de ler o anteprojeto dos Estatutos, por ele mesmo
assinado e também por Benjamin Constant. Constava de 19 artigos apresentados em rascunho do ditado de Sena
Madureira à própria esposa. Imediatamente posto à votação, é aprovado por unanimidade, ao mesmo tempo que se
constituía uma "comissão da Relação dos estatutos", integrada pelo Ten Cel Sena Madureira, Cap Inocêncio Serzedelo
Correia, 1º Ten da Armada Benjamin de Mello.
A seguir os oradores "discorreram sobre vários assuntos atinentes à classe", a saber: Previdência Social da Classe
Militar, Criação de um Montepio no Clube Militar, extensão a todos os oficiais da Armada e do Exército fora da Corte e
ingresso na Irmandade Santa Cruz dos Militares (possuía Montepio).
Pela ordem fizeram-se ouvir: Mal Câmara, Sena Madureira, Marciano Botelho de Magalhães, Severino da Fonseca, CMG
José Marques Guimarães, Cel Cunha Mattos, Benjamin Constant, Serzedelo Correia, Ten Tenório Lima, Sena Madureira
e Custódio de Melo, que encerrou a sessão.
A primeira Diretoria do Clube Militar, que acabava de instalar-se, estava assim constituída:
Presidente: Manoel Deodoro da Fonseca; Vice-Presidente: Custódio José de Melo; 1º Secretário: José Simeão de
Oliveira; 2º Secretário: Marciano Augusto Botelho Magalhães; Comissão de Imprensa: José Marques Guimarães, Eduardo
Wandenkolk e Antônio Sena Madureira.
Aprovou-se ainda a constituição de mais uma "Comissão", esta destinada a agradecer à imprensa "livre e
independente da Corte" pela defesa dos interesses da classe militar. Componentes: Mal Câmara, Mal Deodoro, Alm
Custódio.
Quanto ao Trono, era de desconfiança a expectativa em torno da criação do Clube Militar. É pelo menos o que se
depreende da consulta que a princesa Isabel, no exercício da Regência, dirigiu á sessão de Marinha e Guerra do Conselho
de Estado. Indagava sobre a legitimidade do Clube.
A resposta declarou "que o Clube Militar não é das associações que carecem de prévia autorização do governo, que
seus fins são perfeitamente legítimos e dignos até de admiração . . .".
Foi porém, pronunciamento de 29 out 1887, quando já estava plenamente consolidado o Clube, instalado
naquela enfática sessão de 26 jun 1887, presidida pelo Mal Deodoro da Fonseca."