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CONHEÇA O CLUBE MILITAR - Mal Deodoro da Fonseca - O primeiro Presidente
REVISTA DO CLUBE MILITAR Nº 48
Rio de Janeiro, 26 de Junho de 1937.
(número especial de celebração do cinqüentenário do Clube Militar)
Texto Original*

Autor: Cel QEMA José Fernando de Maya Pedrosa

"Aclamado presidente do Clube Militar na memorável reunião do dia 26 de junho de 1887, Mal Deodoro da Fonseca é uma síntese do soldado brasileiro, através da História. Nela estava o conflito entre a retidão do servidor militar vocacionado e a imposição que o destino lhe oferecia  de interferir no cenário político do País, por força das circunstâncias.

A lógica de sua trajetória pessoal, percorrendo os difíceis caminhos da guerra, é indescritível ­ nascido e formado para a atividade militar, acumulando servo caráter e adestrado-se para o confronto, sob a égide do patriotismo, vê-se, entretanto, involuntariamente  atraído para  uma atividade complexa: ". . . era um deslocado no governo da sociedade civil. Nascera para o comando e ignorava os manejos e acomodações da política. . .", no dizer do Gen Aurélio de Lyra Tavares.

Daí, um outro ponto de encontro seu com o duque de Caxias, também avesso que era ás práticas da política, tão estranhas à formação castrense, mas por elas atraído por circunstâncias independentes de sua vocação maior.

No instante em que foi afastado do cargo de comandante das Armas e Presidente da Província do Rio Grande, nos episódios iniciais da questão militar, o velho soldado estava inexoravelmente recrutado pelo destino para o dia 15 de novembro, justamente pelo seu prestígio de renomeado chefe militar e homem valente capaz de mover os acontecimentos.

Deodoro soldado, origem de tal liderança, é ponto de partida para entendimento da História. Inquietado pelas questões da época, como todo cidadão sensível, defronta-se com outra classe de preocupações: o desgaste do Império, suas difíceis decisões sobre abolição, indisciplina e conspirações republicanas, questão religiosa, ressentimentos militares, aspirações de mudanças profundas na vida nacional contra o conservadorismo e o imobilismo que julgava nefasto.

Nascido em 1827, filho de um militar de carreira na terra das Alagoas, onde os conflitos com holandeses, índios e quilombos marcaram a feição das gentes, na sua infância e juventude ouvira muito acerca da guerra da Independência na Bahia, Ituzaigô e conflitos regionais que abalaram a mente de seu pai, um monarquista exaltado. Daí a visão grandiosa da vida do soldado profissional, o homem que porta uma espada e veste uma farda, símbolo da sobrevivência nacional e de uma ordem política e social justa.

Praça voluntária do 4º Batalhão de Artilharia a Pé, em 1845, aos dezoito anos de idade, iniciava uma trajetória militar inflexível e heróica, até o seu envolvimento político em 1886, quarenta e um anos depois. Segundo-tenente em 1849, primeiro-tenente em 1852, capitão em 1856, já acumulava experiência no ataque à cidade do Recife, em 1849, e no combate da Barra do Matuba durante a Revolução Praeira. Serviu também em duas unidades de outras Armas, no 9º Batalhão de Infantaria e no Batalhão de Engenheiros e 1ª Companhia de Alunos da Escola Militar. Posto à disposição do presidente do Mato Grosso, foi ajudante do comandante das Armas, de 1859 a 1862.

Sua grande oportunidade surgiu, no entanto, a partir de 1864, quando ainda no posto de capitão deslocou-se para o Sul com o 1º Batalhão de Artilharia a Pé, participando do cerco de Montevidéu e , daí por diante, de todas as Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Foi promovido Três vezes por bravura nos campos de batalhas: a major, tenente-coronel e coronel, tendo comandado, com grande distinção, batalhões e brigadas em campanha, especialmente nas ações de Sirena, quando protegeu arriscadamente a vida de Osorio em Estado Belaco, Tuiuti, Potrero Obella, Itororó, onde foi ferido, Peribebuí, Campo Grande e inumeráveis outras ações.

As mortes, em combate, de três de seus irmãos mais moços ( em Curuzu, Curupaiti e Itororó ) não abalaram a sua firme determinação de combater com aquela coragem física dos Fonsecas, filhos de Dona Rosa. Tais virtudes de soldado, demonstradas em campanha e no contato direto com homens humildes do povo e de todas as origens, e sob a exaltação do amor ao dever e á Pátria, transformaram este oficial em autêntico herói, com estilo próprio e feição de condutor.

Referindo-se a esta liderança e explicando o seu papel na Proclamação da República, Alfredo Severo afirma: "Graças, sobretudo, ao seu desmesurado prestígio pessoal no seio da, para quem fazia o papel de ímâ sobre a limalha de ferro, pôde ele, no grande dia decisivo, desfecha o gesto que fez o povo brasileiro vencer mais um marco na estrada do progresso, sem efusão do sangue". E, mais ainda: "Caráter austero, coração magnânimo, consciência reta reta, bravura inata, prudência sábia, civismo sem par não fora ele forjado no metal maleável que se fez mister para vencer, também, nos contubérnios da politicalha. Era homem de, antes quebrar, que torcer".

Aquele filho de um monarquista de convicções místicas seria, por contradição do destino, do homem que, à frente de sua tropa, infletiu o curso político do País para a República. Sem conspirar, sem promover desunião, fora, no momento precioso, o agente oportuno de uma grande aspiração nacional, forjada nos campos do Paraguai e no bojo da crise do Império. Ele, soldado sensível, representava o Exército em suas múltiplas características históricas: identidade com o povo, conhecimento do País, visão nacional dos problemas, sentido patriótico, sobre o lastro do idealismo e da honradez.

Não fora formado para a política, porém, no momento decisivo, soube agir como sempre agiu na guerra, superando a tudo e a si mesmo no dizer do Gen Jonas Correia: ". . . viera ao mundo para comandar; crescera soldado e soldado se fizera, na acepção fria e dura do termo. . ."

Assim foi o primeiro presidente do Clube Militar, muito mais um soldado."