GENERAL OSÓRIO
O Clube Militar associa-se à nação brasileira na comemoração do bicentenário de nascimento de um seu muito ilustre filho – o General Osório, Marquês do Herval. Em 10 de maio de 1808, na estância de seus avós maternos, na localidade de Conceição do Arroio (hoje município de Osório), nasceu este gaúcho que iria marcar sua passagem na história de nossa pátria como personalidade ímpar.
Penso ser um dever de todo patriota que se preocupa com o futuro do país perscrutar o passado, buscando como modelo aqueles que foram responsáveis pela grandeza, pela união, pelo desenvolvimento, pela construção das peculiaridades que identificam a nação. Pertenço a uma geração que foi educada aprendendo a reverenciar vultos históricos, os heróis verdadeiros, cujas vidas e exemplos influíram na formação do nosso caráter. Ensinavam-nos a honrar indivíduos que, na literatura, nas artes, nas ciências, na área empresarial ou nos campos de batalha, contribuíram para o progresso ou afirmação do país ou da própria humanidade.
Dentre as personalidades que se sobressaíram na História do Brasil, no período difícil em que os países sul-americanos se faziam nações independentes, desponta com invulgar clareza o nome lendário do General Manuel Luís Osório, figura exemplar de homem e cidadão, soldado e prócer político.
Vejamos, através de referências feitas a esse célebre brasileiro por alguns de seus compatriotas notáveis, traços de sua personalidade e de sua reluzente trajetória de vida, como soldado e, mais tarde, como senador do império.
Francisco Doratioto, discorrendo sobre a atuação de Osório na guerra da Tríplice Aliança, observou: “Durante a guerra tornou-se lendária a coragem de Osório, ao liderar as cargas de cavalaria, ao colocar-se, seguidamente, ao alcance das balas inimigas e ao participar de combates corpo a corpo. Ele foi, sem dúvida o oficial mais admirado pela tropa aliada, cultivando excelentes relações com seus colegas argentinos, e respeitado também pelo inimigo.”
Gustavo Barroso, escrevendo sobre a Batalha de Tuiuti, reafirmou: “A alma da batalha de 24 de maio, chamada de Tuiuti, foi, sem dúvida, o General Osório. Ele vê tudo, corre a todos os pontos da pugna, entusiasma os soldados, bate-se como um simples lanceiro, toma as medidas, movimenta as tropas e ganha a vitória, como reconhece o próprio Generalíssimo Bartolomeu Mitre.”
J. B. Magalhães, opinando sobre a face política de Osório, acrescentou: “Do ponto de vista político nacional, Osório foi um batalhador pela verdade das instituições, um amigo destemeroso do progresso normal, ordeiro, sem convulsões. Nada servil. Calmo, era insensível à lisonja e às perturbações da vaidade que a muitos arrastam nas decisões solenes. Heróico, sabia resistir aos abusos dos poderosos de todos os matizes, sem cometer excessos de represália, mas sem deixar dúvidas em suas atitudes.”
Deixo para o final o depoimento de Dionísio Cerqueira, descrevendo, de forma bela e dramática, aquilo que ele mesmo presenciou em Tuiuti, após cerca de cinco horas de ferrenha refrega: “Surge no seu cavalo de combate o General Osório, com o largo chapéu de feltro negro, o poncho flutuante deixando ver a gola bordada, a lança de ébano incrustada de prata na mão larga e robusta, e o olhar fascinante, dominando aquele cenário da glória e da morte. De todos aqueles lábios secos, daquelas gargantas roucas, saiu imenso, entusiástico, um viva ao General Osório! Tudo transformou-se ao tremular mágico da bandeirola da lança legendária. A nossa infantaria, galvanizada por aquele homem imensamente amado, levou de vencida, até as profundezas densas das matas, os guerreiros inimigos. Ouvi, e narro com ufania, soldados feridos, estorcendo-se nas vascas da agonia, levantarem-se a meio e murmurarem em voz desfalecida, quando ele passava: Viva o General Osório! Viva Osório!”
Foi, pois, na defesa da honra, da integridade e da soberania de nossa terra, que mais se destacou Osório. Obteve relevo no cenário do segundo império, conseguindo aliar a espontaneidade de um gaúcho simples, desprovido de ambições da glória ou da riqueza, com a individualidade complexa sempre presente em uma pessoa de destaque. Como soldado, deixou legado de magníficos exemplos. Mas, já com idade avançada, não se furtou em continuar servindo à pátria como político probo e respeitado.
Soldados de hoje procuram com dignidade, vencendo todas as sortes de percalços, manterem-se fiéis aos ensinamentos do grande herói. Em sua maioria conseguem. Como Osório, têm orgulho de preservar os valores maiores da Instituição – que ele muito ajudou a construir; não têm pejo em amarem sua pátria; concentram suas preocupações maiores, não em frivolidades da vida moderna, mas especialmente nas ameaças que rondam nossas instituições democráticas e nossa soberania.
O mesmo, lamentavelmente, não se pode afirmar sobre muitos dos que o sucederam, hoje, no quadro político. O cenário com que nos deparamos é muito mais do que deplorável. Cenas de corrupção explícita, em seqüência que nunca finda, interesses menores sobrepujando os verdadeiros interesses nacionais, a mentira institucionalizada dentro dos mais altos escalões da república, a conivência com a anarquia promovida por baderneiros que se auto-intitulam movimentos sociais, muitas vezes financiados pelo próprio Estado, a falta de coragem ou com certeza de vontade, simplesmente, de se fazer cumprir a lei. O triste quadro, infelizmente, todos conhecem.
Estamos, então, diante de um panorama de completa desesperança? Não creio. Acredito firmemente que o Brasil é muito maior do que essa gente sem patriotismo e sem caráter – não me refiro, naturalmente, à totalidade – que infesta nossa política. Acredito na capacidade de reação do povo, já demonstrada em diversos episódios de nossa história. Acredito na lei e nos mecanismos democráticos para fazer reverter essa perversa situação. O Brasil merece nossa fé em seu futuro, mas está a exigir nossa cerrada vigilância.
(*) O autor é General-de-Exército e Presidente do Clube Militar